Página pessoal da artista plástica Mónica Oliveira.
Mónica Oliveira

PRISÕES PERPÉTUAS

Isabel Jones, 2007

Não haverá sonhos comuns a todas as gerações? E afectos, em voos rasantes, no limiar da esperança ou dos desesperos que se transmitem, de homem para homem, logo ali no canto, diria território, onde se pára para nascer e, logo de seguida, gritar? 

Estas interrogações, a marcarem o início de um olhar sobre as formas construídas com a aparente delicadeza gestual de quem manuseia, por dedicação, a montagem de um puzzle interminável, tentam seguir algo do percurso criativo de Mónica Oliveira. 

A escultura que agora apresenta, orientada por alegóricas miniaturas, sejam espaços, paredes, balouços ou marionetas, transporta-nos para o que realmente não vemos. Casas fechadas como as dos pássaros, cilindros opacos com vazios à mostra, gaiolas douradas como se de paraísos estivessem habitadas, bunkers, esconderijos suspensos, ilhas ou o que há dentro delas articulam a opção da artista por linguagens baseadas na valorização de tensão dos contrários. 

Dificilmente vislumbramos, com um único olhar, a raridade de uma singularidade. 

Uma singularidade ocultada e dizível por personagens ou figurantes que se movimentam no teatro dos nossos mais remotos imaginários e no mais telúricos dos silêncios: o vazio da casa habitável ou o sonho comum a todas as fugas. Utopias íntimas. 

A escultura é, aqui, proposta estética e veículo de interrogação num caminho expositivo de objectos concêntricos, de casas imagináveis, de seduções oníricas, de prisões perpétuas ou dos sonhos possíveis.

Todas as peças desta exposição apontam um alinhamento em torno do desejo de ser singular numa procura, com partidas e chegadas adiadas ao ponto onde cada um se esconde ou ao território sempre imaginado. As casas possíveis dispersam-se e conjugam-se em unidades ínfimas e escalas desmesuradas no «espaço encontrado: espaço adiado» que a artista reconstrói a partir de uma escada que não chega ao universo.

“Na arte, seduz-me o jogo tensivo da construção de possíveis impossíveis.”(1)

Ao observar as escadas, as pontes, os corredores, os passadiços, as portas ou as fechaduras falsas, as janelas quadradas nas sequências labirínticas que envolvem e distinguem as peças de Mónica Oliveira, remetemo-nos para universos quiméricos, cuja construção e desconstrução dependem do olhar e, sobretudo, das formas/espaços representados. A representação da casa vazia ou habitada subscreve a fundamentação das peças apresentadas nesta exposição. Construindo elementos de uma geometria clássica, como a casa miniatura com direito a portas e janelas, a escultora mostra que os seus objectos configuram um complexo sistema de símbolos como se o eixo do mundo e a fixação espacial da casa nos transportassem, mesmo que à revelia de todas os desejos, ao carácter cósmico da habitação. Isto é, ao mais primitivo dos arquétipos e, por outro lado, à mais recuada das angústias.   

 Por isso, vamos ver espaços em vez de formas, sobretudo nas peças do tipo «sempre em pé». Estão aqui as casas que parecem flutuar, que aceitam a intervenção do observador direccionando-se em movimentos pendulares para voltarem à sua posição de fortaleza. Assim, as formas construídas por Mónica Oliveira parecem oferecer-nos os traços mais visíveis da inocência e das aparentes fragilidades que se atribuem a este estado.      

 Aqui, a fragilidade da construção comporta sempre o jogo ou a consequência dos sinais contrários. A casa habitável e o lugar de passagem, o refúgio temporário ou o desejo de ficar retido, a presença de um paraíso e a ilusão de liberdade, a procura do lugar e a perda deste, o risco e a renúncia ao improvável constituem presenças em diálogo nas formas expressas pela escultora.

E, se alinharmos as esculturas imaginando-as em quadrículas urbanas, vislumbramos territórios pontuados por construções, sendo que as respectivas traças nos irão induzir, em sequência quase fílmica, as imagens de marcas ilusórias e dos fios arquitectónicos que a vida, nas suas irremediáveis paixões, irá apor em todos os percursos do homem.

“A grande arte não vive do ruído que vem, do ruído que passa. A grande arte vive do que é permanente e, se me permite, só a natureza humana é permanente.”(2) 

Mónica Oliveira trabalha integralmente as suas peças, nunca perdendo de vista cada etapa da sua concepção. Recorre ao ferro, à madeira, à fotografia, às resinas e à cor, continuando a utilizar a diversidade e a justaposição de materiais que a escultura contemporânea apresenta com modalidades que interagem com outras formas de arte.

Os modelos e as formas que a artista tem vindo a construir movem-se no seio suas reflexões que envolvem o meio e a sua própria condição. Daí, a génese de cada uma das peças/espaços habitados, cada uma a ligar-se a outra e o seu conjunto a afastar-se ou a aproximar-se da realidade ou, como Tagore, do sonho, «o que mais pesa ao homem».

A leveza arquitectónica da escultura, como a que artista apresenta nesta exposição contrapondo, pela primeira vez, o negro e dourado de uma casa suspensa em «A ilha de cada um», exterioriza a mais emblemática das subversões que percorrem a obra de Mónica Oliveira.

“No campo da escultura contemporânea, se encontram todas as modalidades possíveis do procedimento artístico, mesmo aquelas que podem já não pertencer ao domínio do artístico, mas do arquitectónico, do social (…).”(3)

Os espaços/formas estruturadas em torno de uma miniatura impõem sentimentos, esforço humano, sensações de massa, de peso, de esmagamento e de delicadeza, seja qual for o ângulo no nosso olhar. E, neste caso, não bastará seguir o olhar das formas. Será necessário seguir pelos territórios que a escultora percorre e nos oferece.    

                                                                                                                Isabel Jones 2007

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1-Miguel von Hafe Pérez (Farpas – Jornal de Notícias, 2007).

2-João Pereira Coutinho (Avenida Paulista – Quasi Edições).

3-Delfim Sardo (Casa para Guardar o Vazio – Assírio e Alvim).