Página pessoal da artista plástica Mónica Oliveira.
Mónica Oliveira

Presentificação do Ausente

Laureano Silveira, 2007

Num tempo de «nomadismo cosmopático», em que os seres humanos das sociedades globalizadas se exercitam na «reformatação da personalidade para o novo mundo sincrónico», cumprindo um processo histórico-político-antropológico que «representa uma contínua onda de insularidade, definidora do próprio indivíduo» (Slöterdijk, 1996), aquilo a que chamaríamos a face visível da presente proposta de Mónica Oliveira – discursos (in)directos– convida-nos a regressar à matriz antropogenética da comunicação, restaurando os laços metapsicológicos que unem os seres humanos pelos símbolos em dimensões de exterioridade sócio-afectiva.

Um desses símbolos é a carta e os significantes a ela associados – envelopes, folhas, postais, caixas de correio, selos – formas geradoras de conteúdos. Mas também as palavras e os conceitos – sonho, viagem, memórias, destino, ilusão, encontro, fuga, … – conteúdos que se instituem como formas, convidando ao diálogo entre o concreto e o abstracto, entre o objectivo e o subjectivo, entre o mundo e a sua representação e que, indo para além destas e de outras dualidades, numa visão que relaciona o múltiplo e o heterogéneo, respeitando o «tecido comum» (Morin, 1988) com que se faz a realidade, entrelaça os destinos de cada um no destino colectivo da condição humana.

E assim, numa acepção mais imediata, enformada pela visão sociológica, a colecção de signos escultóricos que Mónica Oliveira reuniu interpela o observador na sua contemporaneidade, enquanto «ilha nomadizante» (Slöterdijk, idem) vivendo num tempo de simultaneidade e num espaço de mundialização, numa espécie de eterno presente e de inescapável colectivo, em comunicação instantânea e planetária que, transformando a matéria em energia, o descorporiza, desenraiza e isola. Nessa interpelação recria a forma e os sinais de uma comunicação socializadora que relaciona o ser e o tempo, o ser e a distância, o ser e o Outro e que recupera o mundo físico, onde a energia é matéria, para a linguagem figurativa das formas humanizantes.

Mas numa acepção menos imediata e, provavelmente, mais estruturante, porque extensível, em meu entender, ao conjunto da obra que lhe conheço, Mónica Oliveira coloca uma questão violentamente antropológica: a da presentificação do ser na realidade que o define mas que ele, fisicamente, não habita. Presentificação pela linguagem e pela busca ontológica do Outro em Si e de Si no Outro, que é construção de identidade e vocação de transcendência e, no limite, pode reduzir-se à memória ou ser ausência absoluta. Presentificação pelo sentido de inclusão e de pertença que aquilo a que chamarei útero familiar(por analogia com o útero socialde Slöterdijk) proporciona na interioridade da casa, outro dos símbolos de exterioridade sócio-afectiva que compõem a gramática formal desta escultora. Presentificação pela evocação e pela afirmação do ausente, em última instância, o ser não figurado, o Homem e o seu rosto, o Homem e o seu corpo enquanto objecto de representação estética.

Com o rigor inteligível de uma gramática figurativa que escrevee se inscreve na escultura, fazendo emergir o invisível e conferindo ao visível uma dimensão profundamente simbólica, Mónica Oliveira participa de um movimento estético que afirma – independentemente do seu tempo – o Homem, a arte e o seu encontro, como produção de sentido e condição de existência.

LAUREANO SILVEIRA

Setembro de 2007